Não foi delimitado por guerras,
ou conflitos.
Nem por montanhas ou cursos de rio.
Não foi riscado em linhas retas
de capitanias hereditárias.
nem traçado em curvas de nível.
Não se inscreve em cartografias,
não tem relevo, nem biomas.
Não escorrega em chuvas torrenciais.
Não esconde aquíferos, nem minérios.
Não se exibe em vales ou montanhas.
Nenhum fóssil a ser descoberto debaixo do chão.
Não viu fogo, pedra ou lança,
nem arado ou chaminé.
Não tem lingua e nem bandeira, nem vestígio de tempo algum.
Não tem comitês deliberativos, fórum econômico, conferência das partes.
Não possui plano diretor, nem plano de bacia ou ZEE.
Dispensa um conselho de política com ampla representação setorial.
Não tem blackberry, video conferência,
nem aviões que explodem no céu.
Não tem GPS nem satélites artificiais.
Só almas penadas, espíritos, entes.
É o paraíso,
a quinta dimensão!
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
sexta-feira, 16 de julho de 2010
primeiro mês
A minha janela não tem mais vista pra Catedral de Brasília. Não frequento mais o Eixo Monumental, nem passo na frente do Conjunto Nacional. Não brigo mais por um pedaço de chão minerável. Não tenho mais uma sala com sofá e plantas na janela. Não sou visitada por amigos do trabalho e nem faço agitação contra o status có. Não bato mais o ponto. Não tenho mais um cargo em comissão.
Agora eu ando noutra banda, uma ponta de asa. Divido sala com 3. Não sei o nome de quase ninguém. Já tenho 6 contratos pra chamar de meus. Observo um ou outro cara bonitão no corredor. A partir da semana que vem, viajo a trabalho. Fiz um despacho e uma nota técnica, já participei de um curso e de um churrasco. Compro pão de mel do vizinho do térreo.
A vida virou, mas eu ainda sou, Querido Diário.
Agora eu ando noutra banda, uma ponta de asa. Divido sala com 3. Não sei o nome de quase ninguém. Já tenho 6 contratos pra chamar de meus. Observo um ou outro cara bonitão no corredor. A partir da semana que vem, viajo a trabalho. Fiz um despacho e uma nota técnica, já participei de um curso e de um churrasco. Compro pão de mel do vizinho do térreo.
A vida virou, mas eu ainda sou, Querido Diário.
domingo, 4 de julho de 2010
Namorado
Namoro um desconhecido. E como em todo namoro dessa natureza há muita empolgação e susto.
Ele é bom amante. Me presenteia bolotas de flores roxas, ainda nos galhos dos ipês. Me seduz e me beija. Me apresenta a pessoas e não tem ciúmes de mim.
Tem algo de platônico, mas está sempre a um só passo. Quando brigamos, ele desaparece e nada acontece. Fazemos as pazes e ele é radiante como a luz do sol.
Dorme na minha cama e acorda antes de mim. É sempre ele mesmo e sempre novo. Estou apaixonada.
Namoro o Futuro.
Ele é bom amante. Me presenteia bolotas de flores roxas, ainda nos galhos dos ipês. Me seduz e me beija. Me apresenta a pessoas e não tem ciúmes de mim.
Tem algo de platônico, mas está sempre a um só passo. Quando brigamos, ele desaparece e nada acontece. Fazemos as pazes e ele é radiante como a luz do sol.
Dorme na minha cama e acorda antes de mim. É sempre ele mesmo e sempre novo. Estou apaixonada.
Namoro o Futuro.
sábado, 12 de junho de 2010
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Revorta
Quero que morram soterrados por uma avalanche ou derretidos em lava de vulcão. Esses egos inflados de hélio, mentiras, prestígio, cultura e cargos. Cansa-me tudo isso. Eu só quero um pouco de verdade. 5 minutos. Um corpo nu.
sábado, 24 de abril de 2010
Definição
De minha vida eu fiz o que quis,
o que não quis
não fiz.
Sou fresca e transparente,
como o lago, que se vê longe,
ondulante no asfalto quente.
o que não quis
não fiz.
Sou fresca e transparente,
como o lago, que se vê longe,
ondulante no asfalto quente.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Carinhos
[1]
Ontem recebi encomenda. Um livro de Nicholas Behr a minha porta. Presente de amigo.
----------------------------------
[2]
Hoje o santo-protetor-das-mães-atrasadas atendeu o telefone da Escola Parque. Era eu quem ligava, engarrafada num congestionamento inexplicável de véspera de feriado.
Me identifiquei afobada, já com meia hora de atraso: até que horas tem gente por aí? Ele respondeu. Aqui? - e fez uma curta pausa, que me pareceu uma eternidade. Até amanhã... Hã?!?
Tem gente aqui até amanhã - ele disse, e perguntou de novo o meu nome. Doralice. Segui tranquila e lentamente em meio ao trânsito parado.
----------------------------------
[3]
Amanhã é feriado!
Ontem recebi encomenda. Um livro de Nicholas Behr a minha porta. Presente de amigo.
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[2]
Hoje o santo-protetor-das-mães-atrasadas atendeu o telefone da Escola Parque. Era eu quem ligava, engarrafada num congestionamento inexplicável de véspera de feriado.
Me identifiquei afobada, já com meia hora de atraso: até que horas tem gente por aí? Ele respondeu. Aqui? - e fez uma curta pausa, que me pareceu uma eternidade. Até amanhã... Hã?!?
Tem gente aqui até amanhã - ele disse, e perguntou de novo o meu nome. Doralice. Segui tranquila e lentamente em meio ao trânsito parado.
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[3]
Amanhã é feriado!
domingo, 18 de abril de 2010
óculos novos
Com o tempo, todos usaremos óculos, por causa da vista cansada. Contraditoriamente, também veremos tudo mais nítido. Ver não é só enxergar com os olhos, é também intuir caminhos, sempre um pouco repetidos quando se tem experiência.
Com a vivência, passamos a dar nova interpretação aos fatos do passado. As oportunidades perdidas, as aventuras inconsequentes, os amores acalentados sem nenhuma razão. Abre-se um novo olhar sobre os desejos, feitos de lava e cinzas.
Tudo isso pode ser muito melancólico ou ridículo ou estúpido, se o açoite da vida nos roubar o desejo. Aceito o convite - jantar e vinho - desse cara que já viveu bem mais que eu. Ele sofre suas perdas e tem um perfume suave, inversamente proporcional a sua história. Eu gosto disso, mas nada digo. Ele conhece o tempo e sabe que tudo conspira. A favor.
Com a vivência, passamos a dar nova interpretação aos fatos do passado. As oportunidades perdidas, as aventuras inconsequentes, os amores acalentados sem nenhuma razão. Abre-se um novo olhar sobre os desejos, feitos de lava e cinzas.
Tudo isso pode ser muito melancólico ou ridículo ou estúpido, se o açoite da vida nos roubar o desejo. Aceito o convite - jantar e vinho - desse cara que já viveu bem mais que eu. Ele sofre suas perdas e tem um perfume suave, inversamente proporcional a sua história. Eu gosto disso, mas nada digo. Ele conhece o tempo e sabe que tudo conspira. A favor.
domingo, 28 de março de 2010
Jana
Lá fora o sol,
cá dentro a tempestade.
Faz-me falta um deus,
qualquer deus, a quem orar.
Então eu ch-oro tua partida
Janaina
Iemanjá
cá dentro a tempestade.
Faz-me falta um deus,
qualquer deus, a quem orar.
Então eu ch-oro tua partida
Janaina
Iemanjá
quarta-feira, 10 de março de 2010
prazeres do paladar
Elas não reclamam. Brancas, pretas, vermelhas, frescas e secas. Carne, músculos, alguma gordura, ossos. Foi só pedir e teve língua, peito, coxas. Disse não aos pequeninos corações esturricados. Um traseiro suculento lhe chamava a atenção. Salivava enquanto comia rodízio.
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