Alto da torre, o sino bate a uma.
Toda hora soma nãos à madrugada.
O sol sai, ilumina a insônia infame.
O mundo brilha além das pálpebras pesadas.
Não, não, não, não, não, não, naummmm. Sete horas!
Horas lentas de agonia, sem palavra.
O silêncio frio devora a fera.
E o que resta da noite é vil escolha,
entre o não solene e sonoro do sino
e o suspense calado da espera.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Partilha
Desenho um sorriso na tela vermelha.
Pintura rupestre, até a próxima chuva.
O vento espalha a pilha de folhas
que ele juntou. Tudo se desfaz...
Na partilha, eu levo uma folha.
E ele um sorriso estampado,
no vidro do carro sujo.
Pintura rupestre, até a próxima chuva.
O vento espalha a pilha de folhas
que ele juntou. Tudo se desfaz...
Na partilha, eu levo uma folha.
E ele um sorriso estampado,
no vidro do carro sujo.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Balzaquiana
Foram anos e anos de baliza até que sua carteira de motorista atingisse a maioridade. Para os fios brancos, foi feita a tinta. Para jogo de cintura, os trinta. Hoje atrai atenções quando estaciona!
domingo, 27 de setembro de 2009
Eros e Psique
do lado de lá do arco-íris está você, sorrindo, de braços abertos,
aguardando a sua chegada.
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Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Fernando Pessoa
aguardando a sua chegada.
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Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Fernando Pessoa
domingo, 20 de setembro de 2009
Saldo da semana
Fiz aniversário essa semana e ganhei: uma garrafinha pra minha bike nova. Um livro de um cronista divertidíssimo, que você não se arrependerá de adquirir aqui. Cinco telefonemas de gente querida. Dois torpedos de loja de roupa. Um post lindo no blog Mulher Solteira. Um happy hour com velhos amigos deliciosamente adolescentes. Um colar de côco do Xingu. O super cool Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles. Beijos e abraços e mais beijos. E o filme Sétimo Selo, do Ingmar Bergman, que ainda não vi, esperando quem segure a minha mão...
Três perguntas ficam: 1. Mereço? 2. Que mais eu podia querer? 3. Que tal uma pipoca? ;-)
Três perguntas ficam: 1. Mereço? 2. Que mais eu podia querer? 3. Que tal uma pipoca? ;-)
O Homem Maravilhoso
Quatro estudantes me acharam lá na cadeia. Pensei que fosse o fim do mundo. De fato era. Um calor, um medo, uma fome, o corpo todo queimado. Algo muito sério devia estar acontecendo. Mas o quê? Eu me perguntava. Ninguém mais falava comigo, pensei que todos tivessem ido embora.
Na última conversa, enquanto passava a lata amassada pela janela da solitária, o carcereiro me disse que era véspera do feriado de 8 de maio. A esperada Festa da Ascensão. Ele estava feliz, todos os filhos da cidade se reuniriam. Viriam de outros povoados, celebrar e rever o Monte Pelée - o maior atrativo de Saint Pierre. Monte Pelée, o vulcão, sempre foi bonito de se ver. Suas faíscas tornam qualquer festa ainda mais bela.
Quando os rapazes me encontraram, pensei que eram quatro anjos caídos do céu. Fui libertado e socorrido. Do lado de fora, vi a cena desoladora: cinza e lava de vulcão cobriam toda a cidade. Não sobrou nada. Casas e prédios derreteram, a vegetação foi toda queimada.
Soube-se depois por que a cidade não foi evacuada. Os jornais não noticiaram, pois não queriam assustar o povo. Além disso, as eleições estavam próximas. O governador queria votos.
Contaram que o povoado foi destruído em 3 minutos. A cinza e a lava mataram 30 mil pessoas. Apenas eu sobrevivi. Eu, um bandido, um presidiário. Logo que me recuperei, concederam-me regime semi-aberto. Fugi. Desde então, ando louco atrás desse tal governador. Quando encontrar enfio-lhe a faca no meio das costas.
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Em 1902, o vulcão Monte Pelée entrou em erupção. O fluxo piroclástico espalhou cinza vulcânica, a 300 ºC, e lava, a 1000 graus. A cidade de Saint Pierre, na Ilha da Martinica, foi destruída. 30 mil pessoas morreram. O único sobrevivente foi Ludger Cilbaris, um detido. As várias camadas de parede que constituiam sua cela filtraram as partículas de magma. Por ter sobrevivido, Cilbaris ficou conhecido como o homem maravilhoso.
Na última conversa, enquanto passava a lata amassada pela janela da solitária, o carcereiro me disse que era véspera do feriado de 8 de maio. A esperada Festa da Ascensão. Ele estava feliz, todos os filhos da cidade se reuniriam. Viriam de outros povoados, celebrar e rever o Monte Pelée - o maior atrativo de Saint Pierre. Monte Pelée, o vulcão, sempre foi bonito de se ver. Suas faíscas tornam qualquer festa ainda mais bela.
Quando os rapazes me encontraram, pensei que eram quatro anjos caídos do céu. Fui libertado e socorrido. Do lado de fora, vi a cena desoladora: cinza e lava de vulcão cobriam toda a cidade. Não sobrou nada. Casas e prédios derreteram, a vegetação foi toda queimada.
Soube-se depois por que a cidade não foi evacuada. Os jornais não noticiaram, pois não queriam assustar o povo. Além disso, as eleições estavam próximas. O governador queria votos.
Contaram que o povoado foi destruído em 3 minutos. A cinza e a lava mataram 30 mil pessoas. Apenas eu sobrevivi. Eu, um bandido, um presidiário. Logo que me recuperei, concederam-me regime semi-aberto. Fugi. Desde então, ando louco atrás desse tal governador. Quando encontrar enfio-lhe a faca no meio das costas.
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Em 1902, o vulcão Monte Pelée entrou em erupção. O fluxo piroclástico espalhou cinza vulcânica, a 300 ºC, e lava, a 1000 graus. A cidade de Saint Pierre, na Ilha da Martinica, foi destruída. 30 mil pessoas morreram. O único sobrevivente foi Ludger Cilbaris, um detido. As várias camadas de parede que constituiam sua cela filtraram as partículas de magma. Por ter sobrevivido, Cilbaris ficou conhecido como o homem maravilhoso.
domingo, 13 de setembro de 2009
Cenas do Bloco A
Domingão. Fui buscar meu jornal na portaria. Na volta, segurei a porta pro meu vizinho idoso do segundo andar. E foi assim que ele me disse, já dentro do elevador:
- A senhora não é só bonita. É educada e gentil.
Meu coração disparou: tum-quiticum-tum-quiticum-tum!
Não se fazem mais galanteios como antigamente... :-)
- A senhora não é só bonita. É educada e gentil.
Meu coração disparou: tum-quiticum-tum-quiticum-tum!
Não se fazem mais galanteios como antigamente... :-)
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
A liberdade
Ainda escuto o toque de recolher de Pinochet. De dentro da barriga. De dentro da incubadora. De dentro dos braços de minha mãe. Histórias contadas - de que não me lembro - impressas em mim como pegadas no cimento úmido. Eu estava lá. Eu nasci em 73, 5 dias após o golpe.
Houve um tempo em que eu sonhava que dormia dentro de um buraco na parede. Um buraco onde só cabia o meu corpo deitado. Seria algum tipo de prisão, que ainda precisava vazar do meu íntimo mais íntimo?
Por tudo que vi, ouvi e vivi, desconfio da liberdade. A cada dia ela precisa ser reinventada. Pego as chaves, ensaio destrancar o cadeado e volto atrás. Pego as chaves, destranco e vou pelo mundo. Porém, sem esquecer o caminho de volta a minha cela.
A liberdade existe? É uma utopia? Uma loucura irreversível? Deixo-me arrebatar. Ela me apaixona, mas não me corresponde. Por que eu desconfio dela.
Houve um tempo em que eu sonhava que dormia dentro de um buraco na parede. Um buraco onde só cabia o meu corpo deitado. Seria algum tipo de prisão, que ainda precisava vazar do meu íntimo mais íntimo?
Por tudo que vi, ouvi e vivi, desconfio da liberdade. A cada dia ela precisa ser reinventada. Pego as chaves, ensaio destrancar o cadeado e volto atrás. Pego as chaves, destranco e vou pelo mundo. Porém, sem esquecer o caminho de volta a minha cela.
A liberdade existe? É uma utopia? Uma loucura irreversível? Deixo-me arrebatar. Ela me apaixona, mas não me corresponde. Por que eu desconfio dela.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
a palavra escrita
Ofício, parecer, memória, ata,
lista de compras, bilhete pra secretária,
email, mensagem, notas de viagem.
Verso da folha. Por que não tem escolha.
Às vezes é um doce, às vezes uma pedrada,
às vezes atrai, noutras repele,
às vezes cativa, às vezes fere.
Pode ser bonita, elegante, empetecada,
mas a palavra escrita é flexa envenenada!
lista de compras, bilhete pra secretária,
email, mensagem, notas de viagem.
Verso da folha. Por que não tem escolha.
Às vezes é um doce, às vezes uma pedrada,
às vezes atrai, noutras repele,
às vezes cativa, às vezes fere.
Pode ser bonita, elegante, empetecada,
mas a palavra escrita é flexa envenenada!
terça-feira, 25 de agosto de 2009
A premissa
De acordo com o Houaiss, premissa é, por extensão, ponto ou idéia de que se parte para armar um raciocínio. Ex.: "partir de uma premissa falsa". Por que será que sempre que se fala em premissa é pra constatar que ela era falsa?
Imagino um bebezinho mamando no peito da mãe. Mesmo sem dentes e sem grande raciocínios, ele deve partir da premissa que o leite não acabará nunca. Quando a fome vem, ele chora, e logo tem um bico de peito metido em sua boca. Que mundo... Talvez seja esse o segundo melhor dos mundos, logo depois do quente e úmido mundo embrião.
De vez em quando, conto pro meu guri sobre quando ele nasceu. Desci do carro carregando você. Na mesma hora, bateu um vento e balançou de leve os seus cabelos. Você franziu a cara. Mas por quê? Ele pergunta - só pra ouvir de novo a mesma história. Por que você não sabia o que era o vento, eu digo. Ele ri muito e faz cara de quem não acredita. Meu guri ainda é pequeno e, como todo mundo, não se lembra de quando era um bebê. E parte, também como todo mundo, da falsa premissa de que nunca houve um tempo em que ele não sabia o que era o vento.
Pode haver premissa mais falaciosa de que achar que o tempo não passará? Que não aprenderemos? Que não nos tornaremos substancialmente diferentes do que somos hoje? Tenho visto muita gente argumentar que a essência de uma pessoa não muda. Discordo. Um embrião, vive num mundo perfeito. É perfeito por que é único. Só pode ser aquilo. Não depende dos atos de um embrião, o destino solitário e aguado do mundo em que vive.
Agora, saia da barriga e tome seu primeiro vento. Seja picado de pernilongo. Engasgue com osso de galinha. Leve choque em cerca elétrica. Caia de boca na quina da mesa. Vá pra escola e seja mordido pelo amigo. Faça cocô na calça e volte pra casa de cueca suja. Saia do jardim de infância e vá estudar numa escola sem parque... Em que redoma essa essência vai ter que ser guardada para não mudar frente ao mundo que a provoca?
E aí, mais uma vez, alguém pode argumentar: mas a criança muda, cresce, se forma como indivíduo. Daí pra frente, babau. Julgar-se velho demais pra provar algo tão inusitado como um primeiro vento na testa? Só pode ser também uma falsa premissa.
Imagino um bebezinho mamando no peito da mãe. Mesmo sem dentes e sem grande raciocínios, ele deve partir da premissa que o leite não acabará nunca. Quando a fome vem, ele chora, e logo tem um bico de peito metido em sua boca. Que mundo... Talvez seja esse o segundo melhor dos mundos, logo depois do quente e úmido mundo embrião.
De vez em quando, conto pro meu guri sobre quando ele nasceu. Desci do carro carregando você. Na mesma hora, bateu um vento e balançou de leve os seus cabelos. Você franziu a cara. Mas por quê? Ele pergunta - só pra ouvir de novo a mesma história. Por que você não sabia o que era o vento, eu digo. Ele ri muito e faz cara de quem não acredita. Meu guri ainda é pequeno e, como todo mundo, não se lembra de quando era um bebê. E parte, também como todo mundo, da falsa premissa de que nunca houve um tempo em que ele não sabia o que era o vento.
Pode haver premissa mais falaciosa de que achar que o tempo não passará? Que não aprenderemos? Que não nos tornaremos substancialmente diferentes do que somos hoje? Tenho visto muita gente argumentar que a essência de uma pessoa não muda. Discordo. Um embrião, vive num mundo perfeito. É perfeito por que é único. Só pode ser aquilo. Não depende dos atos de um embrião, o destino solitário e aguado do mundo em que vive.
Agora, saia da barriga e tome seu primeiro vento. Seja picado de pernilongo. Engasgue com osso de galinha. Leve choque em cerca elétrica. Caia de boca na quina da mesa. Vá pra escola e seja mordido pelo amigo. Faça cocô na calça e volte pra casa de cueca suja. Saia do jardim de infância e vá estudar numa escola sem parque... Em que redoma essa essência vai ter que ser guardada para não mudar frente ao mundo que a provoca?
E aí, mais uma vez, alguém pode argumentar: mas a criança muda, cresce, se forma como indivíduo. Daí pra frente, babau. Julgar-se velho demais pra provar algo tão inusitado como um primeiro vento na testa? Só pode ser também uma falsa premissa.
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